quinta-feira, março 10, 2005

A BOLA PARADA NAS MÃOS DA VELHARIA

Disso, do mundo que pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança, a gente gosta porque gosta do arco-íris e outras aparências: luzes, cintilações. No fundo, bem dentro de todos nós, há sempre um patego que olha o balão.

Freitas do Amaral

Entre todos os políticos portugueses foi a Freitas do Amaral que a vida concedeu a rara oportunidade de enriquecimento individual, político, social (total) entregando-lhe a presidência da assembleia das Nações Unidas. Logo a ele que já era respeitável intelectual, tinha sido fundador de partido político e ministro lúcido.

No entanto, o anúncio da sua escolha para ministro dum governo socialista soltou mais demónios pelos cinzentos da política e do jornalismo português do que aqueles de que belzebu dispôs para levar ao pecado os candidatos à santidade.

E, pelo visto, os que chegaram a santos conseguiram fugir ao rabudo. Mas Freitas mergulhou na trentação.

Qual o Crime ?

Difícil de responder a quem quiser saber do artigo do código político infringido. Primeiro porque não é crime servir o seu país desde que não mandado por interesses extranacionais, como não raro acontece. E depois, e fundamentalmente, porque, entre a doutrina sociall da Igreja (ela própria e não a garotada e as garotices do portismo popular), a social-democracia de hoje e o socialismo inventado para servir de almofada entre a revolução e a reacção, a diferença é de difícil distinção.

As preocupações são mais ou menos as mesmas, a terminologia vai dar, mais volta menos volta, ao mesmo e a alma ideológica funda-se mais ou menos nas mesmas raízes.

Na prática há, de facto, interesses que se servem mais de uma ou doutra maneira. Mas, entre todas, as coisas não andam muito distantes. Quando, por exemplo, a xenofobia ou o menor respeito pelo direito das mulheres vão parar a este ou àquele desses partidos é mais por defeito das pessoas que de doutrina. Com excepções, evidentemente. Estamos no campo do mais ou menos.

Na conformidade, é difícil entender o tanto espanto, por vezes indignação por se saber de um democrata-cristão em governo socialista. O alvoroço deveria morar, e aí sim, com a chegada à direita de gente vinda da extrema-esquerda. Os 180 º de rotação política.

Contudo eles andam por aí, doutores sem carta de curso, a sentenciar em matéria de honestidade política sem assombro que se levante. Assombrosamente portanto.

O crime de ter tocado em Bush

Depois de passar pela presidência da assembleia das Nações Unidas, Freitas do Amaral não ficou o mesmo. É facto. Só que, quem consegue sair duma função tão enriquecedora como essa igual ao "eu" que entrou, nunca lá devia ter entrado.

É que dela vê-se por dentro o pântano internacional. Bem mais fedorento que o nacional que Guterres viu e depois fugiu, provavelmente com carradas de razão. A razão que lamentavelmente não denunciou ao país.

Esse o pecado em que Freitas do Amaral não incorreu. Cometeu até o crime de comparar Bush a Hitler. Um exagero sem dúvida. Mas todo o mundo sabe que as semelhanças encontradas com Hitler, Mussolini, Salazar e Franco são mais uma adjectivação que uma comparação. Aliás todos os tiranos foram até diferentes entre si. Todos eles tiveram a sua medida, a medida que os respectivos países lhes consentiram.

Hitler na governação dos Estados Unidos seria outro Hitler e Salazar outro Salazar. Marcaram foi a história da crueldade. A do tirano alemão, então, chegou até à loucura.

E modernamente Hitler é mais utilizado como ofensa que como figura histórica. Paul Auster, um grande romancista e uma lúcida inteligência norteamericana, escreveu, para que o mundo soubesse, que a democracia, no seu país, era quase uma ditadura. Uma maneira mais suave de adjectivar, mas um mais ou menos dizer a mesma coisa por outro processo.

Jornalistas a pedir reforma

Talvez que o maior problema do jornalismo português seja o de, nele, serem, há anos sem descanso, sempre os mesmos a perorar. Dantes pensava-se que, pior que um director do "Diário de Notícias" só podia ser outro director do "Diário de Notícias". Hoje, o que mais se vê na comunicação social portuguesa, são directores do DN, unha com carne com o patrão.

Gente com quem o mundo não pula e menos avança. Gente do cinzentão nacional.

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