quarta-feira, fevereiro 23, 2005

VOTEM EM MIM

O mundo já esqueceu a "Laranja Mecânica", um livro ( e filme) com várias mensagens, o qual e as quais já andam esquecidos mas ao tempo fizeram tanto banzé na Europa como Santana Lopes em Portugal nos escassos meses em que governou o país.
Coisa de sua natureza, o barulho. Só que o cimo do banco onde subiu amplificou-os: barulho e barulhento. Mas ele não fez mais do que repetir-se. Foi sempre assim, homem a pedir que olhassem para si. E quando primeiro-ministro pediu o mesmo, por palavras de primeiro-ministro: votem em mim!
Mais ou menos a mesma coisa que os outros apenas de forma veemente. Agora: se o homem é veemente de que forma havia de pedir. Depois: por estas e outras é que temos o que temos.
O narrador da "Laranja" chamou aos políticos, a todos e não apenas a Santana, que nem sabia que existia, gabarolas.
Deveria ter acrescentado porém o tipo de gabarolice. É que são acriançados. Dedo apontado ao outro a dizer que tu és feio e o bonito sou eu, com a vida do povo na ponta do ioó.
O Actor Portas
Mas Santana Lopes tem o encanto de ser natural. Nele até a pouca competência é natural. A vida bem gozada tem coisas mais importantes que ser competente, em consequência do que não há gravidade em pôr os violinos do pianista Chopin a tocar, como ele disse que tocavam. E tocaram mesmo nas duas sinfonias que ele, Chopin, fez. Mas isso ninguém sabia, nem tem importância. Ignorância natural de todos nós.
O que, de resto, falta a Paulo Portas. O mais postiço dos políticos portugueses, salvo caso de fingimento bem escondido. Mas Portas anda de defeitos à vista desarmada. Ainda nos últimos dias desempenhou três papéis distintos com cara de quem representa a mesma para situações distintas. A que pôe para homem de Estado, a que pôs para se mostrar compungido com a morte da irmão Lúcia e a que voltou a pôr para dramatizar o seu abandono da presidência do CDS.
O mesmo ricto, carão fechado, distante, altivo, mas simultaneamente farfalhudo de intenções, pretendendo representar um Catão, mais Catão que Catão, um cristianíssimo mais cristão que Cristo e o espanto de um político desinteressado, um soberbo mandante que esbanja poder, que o deita fora como coisa pequena. Um avo ou menos.
Sucede que a naturalidade humana tem caras para isso tudo. A verdade no entanto é que não tem muitas para quem pretende sempre colher dividendos políticos. A ambição larga fica apertada num só fingir.
Mas há casos em que tem uma para tudo. Uma cara e uma voz para tudo. Sem caixa de sentimentos, como o caso de Sócrates. Um de que não se desconfia, mas em que não se confia.
Rufando apressado
Voltando a Portas, ele é, de facto, um espectáculo. Vários espectáculos. Não só em dia de sermão e missa cantada ou em sessão de actor que representa mal. De grande teatralidade é ele na tropa, ele frente a um desfile, ele a passar revista à guarda de honra. Como marcha emproado, peito de pombo que arrulha, esquerdo/direito, a satisfação de se sentir o oficial do exército que nunca foi! Faz lembrar Camillo Pessanha numa parte do poema cujo primeiro verso é "rufando apressado". E diz assim, numa altura:
Com força soldado!
A passo dobrado!
Bem bamboleado!
O que, já que o soldado é ministro, parafraseando, dá:
Com força ministro!
A passo sinistro!
E aqui a porca torce o rabo porque, nem com a ajuda de dois dicionários de rima, se encontrou rima de bamboleio que jogue com ministro. Mas lá que se bamboleia é vê-lo, esquerdo/direito, rufando ele mesmo até com o bombo calado.
Não haverá um amigo de Portas a dizer-lhe que a vaidade assim se chama cagança? E que tanto a moda como a inteligência a recusam!
Alcunhas
Miguel de Sousa Tavares inventou um bom cognome para Louçã. Chamou-lhe "bispo". Pense-se agora no irmão Francisco de mitra à cabeça. Fica parecido com ele mesmo. Aconteceu no entanto que um leitor, parece que dos futebóis, chamou a Sousa Tavares o "enjoado". Trejeito realmente bem caçado.

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