segunda-feira, fevereiro 14, 2005

ORGIA CARNAVALESCA I

Ao Mundo ninguém o fez. Fez-se. Melhor: foi-se fazendo. Como o homem, que anda a fazer-se há milénios e nunca mais se acaba. Uma confusão dos diabos, convenha-se.
Por isso, que no tempo do paganismo, a gente simples e de pensar a direito, ciente de não ter feito isso duma vida que se alimenta da morte e duma riqueza sustentada pela pobreza, ciente, disso, resolveu inventar os deuses. Alguém explicativo de tamanho despautério: quadros futuros como o da sintonia entre Iraque-Irão-Afeganistão-Ruanda-Sudão-o maremoto-o imperialismo-os fundamentalismos-a Coreia atómica-os comunismos serôdios-secas dilúvios, tudo isto com direito ao contraditório. Que até a natureza o tem porque a agridem diariamente.
No meio de tanta tragédia salva-se um Portugal onde se brinca tanto ao Santana e seus meninos como ao almirante Portas e suas fragatas anti-aborto. Só que a folia, embora não mate povos, mói nações com o grotestco de seus episódios.
ENTÃO:
I - A co-incineração
Rezam as crónicas e os cronistas que os portugueses são o povo mais, ou dos mais, analfabetos da Europa. Pois não obstante essa maior percentagem é formada, quem diria?, por peritos em incineração. Pincipalmente co.
Economistas, bombeiros, futebolistas, políticos, marinheiros, poetas e advogados, também a dona Balbina e o senhor Travassos, de todo esse mundo dos muitos por cento que mal sabem, ou nem sabem mesmo, juntar as letras, anda meio-mundo na rua aos pontapés a um assunto da competência exclusiva dos técnicos. Competentes.
E a chamada democracia, para aumentar o pandemónio, anda por tudo quanto é canto a perguntar ora diga lá de resíduos e da incineração com co , de gases e dos perigos. Questão a que ninguém se recusa porque falar tornou-se um vício. Falo, logo existo.
Então ao telefone e ao microfone todos destapam a sua ignorância porque não têm mais nada para mostrar. Nem vergonha da nudez.
II - Os Revolucionários
O defunto CDS, hoje partido de Portas, descobriu-se revolucionário: um partido de esquerda às direitas.
Nobre Guedes disse que ele, Portas, podia ser o "nosso Malraux".
Nosso deles, evidentemente. Mesmo assim não foram nada modestos, escolheram para comparação um anti-fascista que andou por guerras a sério a lutar contra o fascismo, um intelectual ante a memória de quem a Europa se curva, um homem que até pessoa foi!
Por outro lado, Pires de Lima, afirmando-se "sem medo das palavras garantiu que "nós" (eles) "somos os verdadeiros revolucionários do século XXI". E o próprio Paulinho das Feiras já aceita a transmutação em Paulinho das Revoluções.
Ora, se no meio deste revolucionarismo-PP uns se lembram de Malraux e outros de outras mirabolâncias, fora dele há quem se lembre mais modestamente de revolucionários dá de perto. Da terra portuguesa.
De um revolucionário que, de poder fresco nas mãos, declarou, tão convicto como é hábito entre Portas e seus rapazes:
"Enquanto houver um lar sem pão, a revolução continua".
Chamava-se António de Oliveira Salazar.

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