quarta-feira, fevereiro 09, 2005

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Este país é mesmo provinciano. O país inteiro, gente e geografia, já que os responsáveis por ele fazem dele uma província da Europa. Espiritual, servindo-se do seu nome como razão arrasadora em tudo o que discutem.

A comparação com o que se faz e não faz na Europa, e se faz deveria repetir-se ou se não faz deveria rejeitar-se, é o argumento máximo. A elaboração intelectual mais sabida.

Um provincianismo que nem dá direito ao contraditório, tal como Marcelo não gostava de dar entre as suas constantes afirmações de ser professor de direito.

- Eu que sou professor de direito ! - lembram-se ?

Não gostava e não dava, para grande irritação de Santana. Enquanto desejava a ocupação da Lusomundo por gente sua. Ou seja, enquanto trabalhava no limiar do direito ao contraditório do povo que ainda ministra. Como se faz na Europa.

Provincianismos, no entanto

Fernando Pessoa dizia, e até deixou escrito, que Eça de Queiroz era o mais provinciano dos escritores portugueses: pelo parisiense que gostava de mostrar-se, pelo estrangeirado de modos e dizeres por que às vezes se fazia passar. Ou passava mesmo.

Para Pessoa, provinciano era o que se enfeitava com plumas alheias, o que se punha em bicos nos pés para que o vissem. Considerava-o como que parvenu , como diria Eça.

Mas há que diferenciar entre uma pose de literato e o senhor Silva ao volante dum Ferrari. À parte isso, o que mais distinguiu, no capítulo, Pessoa de Eça foi que, enquanto este se escreveu, numa das suas "cartas" ( de Londres ou de Paris, embora num enquadramento que diminuiu o entono) um parisiense - a presença do primeiro em terra estrangeira exacerbou-lhe o nacionalismo. Fez dele um patriota místico.

Serviram aqui os talvez maiores nomes, em popularidade, da literatura portuguesa para demonstrar que provincianismos há muitos. Não apenas entre políticos.

O chico-espertismo

O chico-esperto talvez seja um tipo de provinciano, mas mais tosco. No fundo um convencido da estupidez dos outros, que procura explorar.

Paulo Portas, em defesa do seu ministro Nobre Guedes, aquele que arengou ao povo de Coimbra para não deixar entrar Sócrates nas muralhas da cidade, apareceu nas televisões com um arrasoado a dizer que aquilo retumbado pelo governante não foi o que as palavras disseram. Não foi barrá-lo, a Sócrates, com barreiras físicas (paus e pedras) mas com barreiras políticas (votos). No fundo disse que Guedes disse o que não disse.

E falou com tanta convicção que deixou a ideia de crer realmente em que os portugueses a que se dirigiu são estúpidos que nem portas. Ideia de que sobram duas hipóteses: serem os portugueses estúpidos que nem portas, ou Portas que nem porta.

Provincianismo erótico

Disse-se que eram mil. Elas

E apenas um. Ele.

Ele, Pedro, que não é pedra como o São, mas carne de um colo, o seu, para muitos colos, os delas. As que foram pôr-se-lhe à volta num colar de orgia política.

Colar que espichou lubricidade. Jacto, Santo Deus! Que por descuido foi atingir os desprovidos de tal aconchego. Uma variante dos sem-abrigo: os sem-regaço. Pelo menos delas, as que se regaçaram para Pedro. A quem Nosso Senhor não livrou da tentação de apontar José-Suposto-Sem-Colo com um gesto largo de mostrar-lhe elas todas adornando-o. A si. Não a ele, sobre quem boatos oportunos lançaram suspeitas.

Que Pedro Santana Lopes se prestasse ao papel a que se prestou, hoje não admira. A mãe de Kennedy também orientou uma campanha à presidência dos EUA apelando ao eleitorado feminino; os conselheiros de Lopes, ao que consta brasileiros, teriam agrrado na ideia e, de modo grosseiro, lembraram-se de fazer dos mil colos um facto político. Até aqui, tudo vá que não vá. Santana Lopes tem sido uma desilusão, até para os que lhe achavam graça. Portanto, para os técnicos de imagem levá-lo ao caricato não deve ter sido difícil. E mulheres arranjaram-nas. Pelo menos veio na informação que elas estiveram lá.

Aqui é que foi o mal. A mulher, hoje, já não é nada que foi. A mulher, hoje, tem obrigações para si como mulher. E, ir de colo a a abanar em demonstração de como qualquer político é femeeiro, ofende-a como pessoa.

Se houvesse justiça, deveriam todas as mil ser julgadas por interrupção voluntária da dignidade feminina.

1 comentário:

LS disse...

Excelente texto. Parabéns!
Um abraço